Cine Teatro Central
#18. Vol 2 e meu encontro com Clarice
Arquivo pessoal: Cine Teatro Central/UFJF (Juiz de Fora, Minas Gerais)
Eu estava caminhando pelo calçadão, numa espécie de vértigo noturno. Respirava, absorta, o que o dia julgara disfarçar em meio à luz. Apenas o instante de um salto para compreender o que me passava, com um quê de fulgor clariciano, meu órgão vital, porém invisível, pulsou a melodia entrecortada.
O teatro ao fundo, as paredes antigas e o teto pintado à mão levavam-me ao sonho interrompido na infância. Estivemos ali, meu pai, minha mãe e eu, numa época em que o teatro foi também cinema. Era ela, a dor conhecida, minha gentil amiga: a incompreensão. Do tempo, ora disfarçado de solidão, ora declaradamente madurez. Não estamos feitos para envelhecer. Digo isso assumidamente, quando declaro o fim. Não fomos criados para morrer.
Continuei minha prece silenciosa e atenta, os olhos temerosos pressentindo o que aconteceria depois. Caí na ideia de Deus, Clarice. E prossegui, caminhando baixinho, com o olfato buscando o jardim de minha mãe.
Não quero morrer agora. Nem nunca. Quero libertar-me da gravidade da vida, da terra, de minhas pernas, do coração. A palavra como o fim, o entremeio e a saída; o bico do pássaro; à memória e à extinção.
Qualquer instante que remeta ao eterno vale a pena conhecer.
Levantei-me ainda mais profunda e só. Quis recordar-me miserável. Entre a ruína e o milagre. Porém, viva.
Sarah Munck.



amei a edição, obrigada 💫
Que texto maravilhoso, Sarah.
Estou amando fazer parte dessa comunidade que a cada dia me presenteia com palavras tão cheias de alma e profundidade.